sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

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Considerações finais
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...Hoje, é possível ver que aquelas pequenas manifestações da música afro surgidas apenas com o intuito de animar as festas dos guetos pobres da Jamaica e Estados Unidos foram se moldando e, concomitantemente, disseminando-se por várias partes do mundo. Em nossos dias, é sinônimo não só de manifestação cultural, mas de movimento social em prol de igualdades entre as camadas sociais, assumindo o distintivo de voz das pessoas que lutam também pela igualdade racial.
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...Esse novo estilo conquista cada vez mais uma grande parcela de jovens que toma contado com suas manifestações. Diferentemente da grande maioria dos ritmos musicais, o rap funciona como uma música que, ao invés de prender as pessoas em refrões de fácil memorização, tem como propósito maior fazer com que seus ouvintes se questionem sobre o conteúdo que é passado nas letras.
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...Mas, devo alertar que as características as quais me refiro são em especial as do Brasil, já que o rap estadunidense hoje está dotado de uma característica bem diferente, fortemente absorvida pela sociedade e mercado e é hoje um dos produtos mais fortes do mercado fonográfico. Se por um lado muitas composições do gênero atendem à necessidade de protestar e fazer denúncias contra as mazelas sociais, outras apenas têm como objetivo satisfazer as exigências dos investidores, sem ter aquela responsabilidade com temas direcionados a questões políticas ou raciais que eram a essência dos antigos movimentos. Segundo Afrika Bambaataa, um dos percussores do rap, esse tipo de composição rap: “se afastou de suas origens libertárias: ‘É repetitivo, não combina ritmos, como faz o som brasileiro [...]’” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.126).
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...No Brasil, apesar do grande ganho de adeptos e admiradores ao movimento, ainda é forte a resistência dos grupos à assinatura de contratos com as grandes gravadoras. Deixando os grupos com muito mais liberdade para explorar os temas que são discutidos em suas música. Em parte, essa guerra entre grandes gravadoras e grupos acaba criando uma questão. Será que os grupos ao cederem e aceitarem abertamente a assinatura de contratos com as grandes gravadoras, ao fazerem as músicas (produto final) continuarão a fazer as mesmas abordagens de hoje? Ou não, a tendência é acontecer no Brasil o mesmo que aconteceu com os grupos estadunidenses?
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...Essas são questões que ainda estão se delineando no Brasil, mas o que posso concluir de minha pesquisa é que o rap é um movimento de proporções assombrosas, pois tem como grande arma a própria vivencia da maioria de seus interpretes, sendo talvez um dos fatores mais preponderantes para a conquista de legiões de seguidores, que vêm no rap não apenas música, mas um instrumento que perpassa a realidade da grande maioria da nação brasileira.
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...Realidade configurada através dos anos de uma particularidade única em relação a desigualdade social e um preconceito racial totalmente disfarçado. Mas o rap tenta alertar as pessoas para essas questões e, ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas lutem com suas próprias mãos por melhorias na situação das comunidades pobres dos grandes centros urbanos.
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Douglas R. Machado.
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O Rap

....A inserção do rap no Brasil, e principalmente nas periferias das grandes cidades, teve uma meteórica aceitação de seus moradores, principalmente daqueles mais jovens. Quer seja por sua história, quer seja por seu rápido sucesso junto às comunidades, os compositores nacionais viram no rap uma ótima possibilidade de fazer uso das canções não apenas para conseguir prestígio entre os ouvintes e faturar com altas vendagens — o que acaba acontecendo com alguns grupos —, mas também para:
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a. propagar idéias e denúncias visando à união dos próprios moradores na busca por soluções para os problemas da comunidade;
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b. conscientizar e ação de toda a sociedade na busca por melhorias nas políticas públicas para o atendimento dessas comunidades;
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c. acabar com a tradição das elites em dar as costas para quem está abaixo na pirâmide econômica.
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...Ao lançar os olhos para todos os grupos nacionais sob a ótica dos propósitos a serem atingidos com suas músicas, vemos que o grupo Racionais Mc’s poderia ser encaixado numa linha política, pelo direcionamento do conteúdo de suas canções. E assim, na esteira da natureza de seu trabalho, buscando desenvolver a conscientização das comunidades mais pobres e união frente aos problemas enfrentados no cotidiano das favelas, esse grupo é tido como um dos mais admirados pelos ouvintes de rap do Brasil. Liderado por Mano Brown, os Racionais Mc’s seguem uma linha de pensamento extremamente crítica em relação à situação dos moradores das favelas e aos padrões impostos pela mídia e alta sociedade como meta a se buscar por pessoas que não têm as vezes nem o que comer. Em suas músicas, os Racionais se colocam como um exemplo de resistência contra o os padrões burgueses, deixando claro que não estão sozinhos nessa luta.
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............................Vinte e sete anos contrariando a estatística Seu comercial de tv
............................ não me engana Eu não preciso de status nem fama Seu carro e
.............................sua grana já não me seduz E nem a sua puta de olhos azuis Eu
.............................sou apenas um rapaz latino americano Apoiado por mais de 50 mil
............................ manos Efeito colateral que o seu sistema fez Racionais capítulo
.............................4 versículo 3” (Racionais Mc's - Capitulo 4 Versículo 3).
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...Através de um discurso dotado de gírias, trazem como principais armas para a luta dos manos: “[...] sua palavra em primeiro lugar. Em seguida, sua ‘consciência’, sua ‘atitude’ — expressões empregadas insistentemente nas letras dos Racionais, e que em termos gerais significam: orgulho da raça negra e lealdade para com os irmãos de etnia e de pobreza” (KEHL, 1999).
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...Lealdade é expressa desde o modo como se dirige aos ouvintes, “manos”, como irmão, como uma forma de direcionar-se a todos os “excluídos”, criando uma corrente de afinidades e demonstrando confiança, consciência e igualdade, sem distanciamento entre artistas e público.
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...Mesmo os “negros limitados”, aqueles que não se preocupam com a consciência negra, não deixam de receber mensagens nas músicas como uma forma de aviso para não continuarem parados, deixando a vida passar, acomodados com o que lhes é imposto:
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............................Então, vocês que fazem o RAP aí
............................São cheios de ser professor, falar de drogas, policia e tal
............................E aí, mostra uma saída,
............................Mostra um caminho e tal, e aí..?’
............................Cultura, educação, livros, escola.
............................Crocodilagem demais.
............................Vagabundas e drogas.
............................A segunda opção é o caminho mais rápido.
............................E fácil, a morte percorre a mesma estrada é inevitável.
............................Planejam nossa restrição.
............................[...] Leia, se forme, se atualize, decore.
............................Antes que os racistas otários fardados de cérebro atrofiado.
............................Os seus miolos estourem e estará tudo acabado
............................(Racionais Mc's – Negro limitado).
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...Mas aqueles que recusam uma identificação com os manos, dando mais valor aos padrões “playboys(1)” de vida e virando as costas para a sua “raça” — fazendo-se assim uma “ovelha branca”, um “traidor” — são condenados pelos músicos nos últimos versos da música “júri racional” por passar para o outro lado, renegar sua cor para defender os “playboys”, e não só aceitar as condições impostas por eles, mas também defendê-las, ignorando a humilhação que moradores da favela passam frente à polícia, às vezes e tão somente por causa da cor de sua pele:
(1) Forma de se referir as pessoas que estão fora do contexto da favela, geralmente os ricos.
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............................Eu quero nos devolver o valor, que a outra raça tirou.
............................Esse é meu ponto de vista. Não sou racista, morou?
............................E se avisaram sua mente, muitos da nossa gente,
............................mas você, infelizmente,
............................sequer demonstra interesse em se libertar.
............................Essa é a questão: autovalorização.
............................Esse é o título da nossa revolução.
............................Capítulo 1:
............................O verdadeiro negro tem que ser capaz
............................de remar contra a maré, contra qualquer sacrifício.
............................Mas com você é difícil: você só pensa no seu benefício.
............................Desde o início, me mostram indícios
............................que seus artifícios são vícios pouco originais, anormais,
............................artificiais, embranquiçados demais.
............................Ovelha branca da raça, traidor!
............................Vendeu a alma ao inimigo, renegou sua cor.
............................Mas nosso júri é racional, não falha!
............................Por quê? Não somos fã de canalha!
..........................“Por unanimidade, o júri deste tribunal declara a ação procedente”.
............................E considera o réu culpado
............................Por ignorar a luta dos antepassados negros
............................Por menosprezar a cultura negra milenar.
............................Por humilhar e ridicularizar os demais irmãos.
............................Sendo instrumento voluntário do inimigo racista.
............................Caso encerrado” (Racionais Mc's – Júri Racional).
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...Na linha da acusação, Mano Brown não poupa argumentos para justificar a situação precária de vida que os moradores das favelas se encontram e o trauma que os descendentes negros carregam no Brasil, pelo preconceito vivido no dia-a-dia e todas as barreiras para ascensão social com dignidade. Para isso, na sua música “Negro Drama” faz um jogo com o tempo, lembrando-se do passado, relacionando-o com o presente e dando indicações de uma consciência que traz consigo uma sede de mudança imediata através da contestação dos próprios oprimidos:
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............................Passageiro do Brasil, São Paulo, agonia
............................Que sobrevivem, em meio a zorra e covardias
............................Periferias, vielas e cortiços
............................Você deve tá pensando, o que você tem a ver com isso
............................Desde o inicio, por ouro e prata
............................Veja quem morre, então veja você quem mata
............................Recebe o mérito, a farda, que pratica o mal
............................Me vê, pobre, preso ou morto, já é cultural
............................Histórias, registros, escritos, não é conto, nem fabula,
............................lenda ou mito
............................Não foi sempre dito, que preto não tem vez
............................Então olha o castelo e não, foi você quem fez cuzão
............................Eu sou irmão, dos meus truta de batalha
............................Eu era a carne, agora sou a própria navalha
............................Tim..tim.. um brinde pra mim
............................Sou exemplo, de vitórias, trajetos e glorias
............................(Racionais Mc's – Negro drama).
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...Num outro trecho da mesma música, Mano Brown trata da questão de uma grande parcela das famílias das periferias: sua composição, quase freqüentemente, sem a presença do pai. Este que, por abandono ou por tragédias, deixa muitas vezes nas mãos das mães a tarefa de assumir sozinha todas as responsabilidades da casa e dos filhos. Assim, muitas vezes, essa dura realidade é responsável por criar no pensamento da sociedade dominante a idéia de que é do seio “dessa família às avesas” que sai mais um habitante que chega à dita civilização sem nenhum valor para os padrões burgueses da sociedade:
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............................Uma negra, e uma criança nos braços,
............................Solitária na floresta, de concreto e aço,
............................Veja, olha outra vez, o rosto na multidão,
............................A multidão é um monstro, sem rosto e coração,
............................Hey, São Paulo, terra de arranha-céu, a garoa rasga a carne,
............................é a torre de babel
............................Família brasileira, 2 contra o mundo,
............................Mãe solteira, de um promissor, vagabundo,
............................Luz, câmera e ação, gravando a cena vai
............................O bastardo, mais um filho pardo, sem pai
............................(Racionais Mc's – Negro drama, grifo nosso).
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...Com intuito de conquistar a confiança de seus ouvintes e mostrar que tudo o que eles dizem em suas letras não é fictício, os Racionais colocam-se como o próprio exemplo de resistência à vida de criminalidade, mas deixa claro que a escolha do caminho que eles percorreram durante a vida não foi fácil, e que muitos não resistiram e ficaram para trás, não resistiram à tentação do dinheiro fácil:
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............................São poucos, que entram em campo pra vencer
............................A alma guarda, o que a mente tenta esquecer
............................Olho pra traz, vejo a estrada que eu trilhei
............................Mó cota quem teve lado a lado, e quem só fico na bota
............................Entre as frases, fases e várias etapas
............................De quem é quem, dos manos e das minas fraca,
............................Hum.. negro drama de estilo,
............................Pra ser, e se for, tem que ser, se temer é milho
............................Entre o gatilho e a tempestade
............................Sempre a provar, que sou homem e não covarde
............................Que deus me guarde, pois eu sei, que ele não é neutro
............................Vigia os rico, mais ama os que vem do gueto
............................Eu visto preto, por dentro e por fora
............................Guerreiro, poeta entre o tempo e a memória, hora,
............................Nessa história, vejo o dólar, e vários quilates
............................Falo pro mano, que não morra, e também não mate,
............................O tic tac não espera veja o ponteiro,
............................Essa estrada é venenosa, e cheia de morteiro
............................Pesadelo, hum, é um elogio,
............................Pra quem vive na guerra, a paz nunca existiu
............................Num clima quente, a minha gente soa frio
............................E um pretinho, seu caderno era um fuzil um fuzil
............................(Racionais Mc's – Negro drama).
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...A escolha é difícil, ainda mais quando a pessoa olha a seu redor e vê apenas uma realidade totalmente contrária a suas pretensões, sobrando apenas idéias que podem trazer uma felicidade imediata, mas ao mesmo tempo problemas piores que os de antes:
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............................Eu sei como é que é, é foda parceiro, Hee, a maldade na cabeça
............................o dia inteiro. Nada de roupa, nada de carro, sem emprego,
............................não tem Ibope, não tem role sem ter dinheiro. Sendo assim,
............................sem chance, sem mulher, você sabe muito bem o que ela
............................quer (HEE....). Encontre uma de caráter se você puder.
............................É embaçado ou não é?
............................Ninguém é mais que ninguém, absolutamente, aqui quem
............................fala é mais um sobrevivente.
............................Eu era só um moleque, só pensava em dançar, cabelo
............................black e tênis all star. Na roda da função "mó zoeira!"
............................Tomando vinho seco em volta da fogueira. A noite inteira,
............................só contando história, sobre o crime,sobre as treta na escola.
............................Não tava nem aí, nem levava nada a sério.
............................Admirava os ladrão e os malandro mais velho.
............................Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:
............................o que melhorou? Da função quem sobrou?
............................sei lá, muito velório rolou de lá pra cá, qual a próxima mãe
............................que vai chorar? Há! Demorou, mas hoje eu posso
............................compreender, que malandragem de verdade é viver.
............................Agradeço a Deus e aos Orixás,
............................parei no meio do caminho e olhei pra trás.
............................Meus outros manos todos foram longe demais:
............................Cemitério São Luis, aqui jaz.
............................(Racionais Mc’s — Fórmula mágica da paz).
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...Num outro recorte da música, “Negro Drama”, Mano Brown deixa uma mensagem para os "bacanas” que sempre deram as costas para a favela e talvez hoje, pela fama do grupo, tentem se aproximar:
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............................Hey bacana, quem te fez tão bom assim,
............................O que se deu, o que se faz, o que se fez por mim,
............................Eu recebi seu tic, quer dizer kit, de esgoto a
............................céu aberto, e parede madeirite,
............................De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui, você não,
............................Se não passa, quando o mar vermelho abrir,
............................Eu sou o mano homem duro, do gueto, Brown, oba,
............................Aquele loko, que não pode errar (Racionais Mc's – Negro drama).
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...É clara a consciência que os cantores mostram quando se refere a não poder errar, pois sabem que essa sociedade que hoje tenta aproximar-se deles, ao longo da história nunca deu a mínima importância para os problemas das classes mais baixas, deixando para elas apenas o “kit de esgoto a céu aberto e parede de madeirite”, como o ocorrido no episódio do Cabeça de Porco no Rio de Janeiro. Tentam evitar o mínimo contato com as elites, pois sabem que — para continuarem seu caminho na luta para conseguir mais adeptos à resistência ao mundo da criminalidade e da desigualdade social — não podem se deixar levar pela fama, pois seria um erro para seus projetos. Sabem que se isso acontecer poderiam perder toda a credibilidade junto aos moradores da favela, e, além do mais, poderiam ser classificados como mais um grupo que foi comprado pela grande indústria, pondo a perder todo o trabalho conseguido com muito esforço, para atender, por exemplo, somente as exigências impostas por grandes gravadoras.
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...Também seguindo uma linha política, o grupo Trovadores, de Diadema, em sua música, “A verdadeira guerra infinita”, associa a vida de hoje com um campo de batalha onde a luta é para permanecer vivo, não só perante problemas com a criminalidade das grandes cidades brasileiras, mas também ante a necessidade de melhores condições de vida.
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...O grupo reconhece a necessidade de uma “revolução”, “mas não sozinho”, os guerreiros para essa batalha podem ser encontrados no dia-a-dia das cidades:
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............................Logo cedo sem falha
............................Enfrentando a capitania
............................O capataz que guia toda essa rotina
............................Renovada energia que faz mudar essa sina
............................A justiça divina abastece o que é verdadeiro
............................O raio que ilumina e purifica o guerreiro
............................Que liberta o prisioneiro da prisão mental
............................Tocando primeiro em seu lado sentimental
............................O conflito espiritual que busca a liberdade
............................Uma batalha surreal travada na cidade
............................Onde personalidades se perdem na multidão
............................Vindo de várias localidades sem saber pra onde vão
............................Apertados em uma condução que transporta sonhadores
............................Herói, vilão, senhoras e senhores
............................(Trovadores — A verdadeira guerra Infinita).
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...Segundo o grupo, existe uma grande dificuldade em “recrutar” pessoas para essa causa, pois a questão a ser trabalhada se torna muito mais complexa pela falta de orientação das pessoas. As pessoas recebem, sim, informações. Mas não conseguem filtrá-las e estabelecer uma posição crítica sobre elas, sendo então “[...] aliciados por inimigos entrincheirados [por] sistemas de comunicação e espiões infiltrados [que] fazem lavagem cerebral através de ideologias [com] mensagens subliminares todo santo dia [...]” (Trovadores — A verdadeira guerra Infinita).
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...O grupo atribui aos meios de comunicação, como a televisão, a responsabilidade por prender as pessoas em uma realidade alienante. Todos os dias as pessoas esperam para assistir a programas que pouco ou nada trazem de edificante à vida real; pelo contrário, passam-lhes uma realidade camuflada, muitas vezes fora dos padrões sua vida. Imagens que não provocam em seus telespectadores questionamentos, e que fazem com que se sintam satisfeitos apenas com o que lhes é transmitido, gerando na sociedade uma situação de assentimento. Diante disso, o grupo se coloca com o objetivo de levar a sua música para as pessoas:
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............................Que quer entender, compreender, aprender alguma coisa
............................nova, concreta, prestativa, conhecer.
............................Não se limite não seja limitado
............................O que é diferenciado também tem que ser escutado
............................[...] são vários assuntos para abordagem
............................Mas não é só cantar tem que passar uma mensagem
............................Para quem escutar refletir e pensar
............................Levantar pra lutar, sua vida mudar e melhorar
............................Ir atrás de perspectivas novas alternativas
............................Construtivas, decisivas, sadias e criativas
............................Por isso que pra vocês faço essa canção
............................Sai do coração minha composição
............................Minha inspiração (Trovadores — Ouça essa canção).
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...Numa linha diferenciada, surge, na década de noventa, como grande nome do rap com características comerciais, Gabriel o Pensador. Com um repertório mais eclético, o músico circula entre temas variados que vão desde a crítica ferrenha até a alusão a algumas questões menos compromissadas com pensamentos políticos, aciais ou sociais, seguindo uma tendência pop e freqüentando diversas vezes as paradas de sucessos.
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...Na contra-mão da grande maioria dos grupos, que procura não se comprometer com a grande mídia para não terem que se submeter a mandos de pessoas que, na maioria das vezes, ela mesma critica com extrema dureza. Gabriel o Pensador nunca hesitou em participar de programas de grande audiência, considerados programas que apenas exploram a imagem dos artistas com a única finalidade de vencer a disputa pelo índice de audiência entre as emissoras de televisão.
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...Por essa atitude o cantor acabou se transformando num dos grandes alvos de críticas das pessoas que participam do movimento Hip Hop, declarando que a grande “mídia tentou de todas as formas forjar ícones como Gabriel Pensador para o público do Hip Hop, mas não colou! Os favelados responderam com a projeção dos Racionais, GOG, Facção Central, Consciência Humana e muitos outros” (DIAS, 2005, s/p).
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...Participantes do movimento Hip Hop alegam que a aparição de cantores de rap na grande mídia nada mais é do que uma jogada para atraírem mais adeptos para o movimento com um sentido vazio, apenas para preencherem as expectativas mercadológicas do capitalismo. São analisados pelo movimento como entretenimento, moda e, portanto, perdem a essência dos ideais dos antigos praticantes. O objetivo do movimento não é só a diversão, mas conseguir adeptos, não apenas para ouvirem as músicas, mas sensibilizá-los a fim de que tomem atitudes que visem ao fortalecimento das atividades Hip Hop nos bairros com: “[...] as posses (2), stúdios e bailes comunitários, as rodas de break em praças, os ensaios coletivos com vários grupos de Hip Hop, organizar festivais sem premiações de melhores disto ou daquilo [...]” (DIAS, 2005, s/p).
(2) Turma ou associação que realiza ações sociais em suas comunidades.
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...Se foi jogada de marketing ou não, o fato é que Gabriel o Pensador desde a sua primeira aparição na grande mídia não pára de compor músicas que são rapidamente absorvidas por uma massa de ouvintes. Como é o caso da música “2345 meia 78”, uma produção extremamente adversa das músicas tradicionais do rap que vinham sendo produzido no Brasil.
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...A música não vem com nenhuma tradicional critica a que os rappers estavam acostumados a ouvir na época, ao contrário trata-se de uma boa dose de humor colocada pelo cantor, contando as trapalhadas de um rapaz para conseguir marcar um encontro com uma das moças que estão marcadas em seu caderno de telefone:
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............................Fim de semana chegando e o coitado tá no osso mas acaba de
............................encontrar a solução
............................Coloca um caderninho no bolso, apanha umas fichas e corre prum
............................orelhão
............................É o seu velho caderninho de telefone com o nome e o número de um
............................monte de mulhé...
............................E ele vai ligar pra todas até conseguir chamar uma gata pra sair
............................e dar um rolé
............................2345MEIA78!
............................Tá na hora de molhar o biscoito!
............................Eu tô no osso mas eu não me canso!
............................Tá na hora de afogar o ganso!
............................Letra A, vâmo começar: Alô, por favor, a Ana Maria está?
............................(Ela saiu com o namorado. Quer deixar recado?)
............................Não obrigado, deixa pra lá.
............................Letra B, vou ligar pra essa Bianca
............................Tem cara de carranca mas dá pra dar o bote
............................Desligou na minha cara, que tristeza
............................Chamei ela de princesa ela pensou que fosse trote
............................Que se dane! É até melhor assim
............................Eu vou ligar pra Dani que ela é gamadinha em mim
............................"Oi, Danizinha, lembra do Animal?!"
............................(Não conheço ninguém com esse nome. Tchau!)
............................Deve tá com amnésia.
............................Vou pra letra "E": 2-bola-gato-69-bola-sete
............................É a bola da vez: Elizabete
............................Dizem as más línguas que ela é boa de (Alô!)
...........................Alô, a Beth está?" (Tá, mas não pode falar.
............................Ela tá de boca cheia e eu
............................tô comendo, rapá!)
............................Que azar, liguei na hora errada
............................A hora da refeição é uma hora sagrada
............................Meu caderninho de telefone parece um cardápio
............................e faz um tempo que eu não como nada
............................2345MEIA78!
............................Tá na hora de molhar o biscoito!
............................Eu tô no osso mas eu não me canso!
............................Tá na hora de afogar o ganso!
............................Letra "F", quem não arrisca não petisca. "Alô, é da casa da
............................Francisca?"
............................(Ela se mudou. Casou com um delegado de polícia. Quer o número?)
............................Tô fora, risquei da minha lista
............................Há muito tempo eu conheci a Dona Guta, uma coroa enxuta
............................Como será que ela tá? (Dona Guta? Vou chamar. Vovó! Telefone!)
............................(Heeein!??) Achei melhor desligar.
............................Tenhei o "H", o "I" e o "J". E até agora num arrumei uma... Gata
............................L, M, N, O... A cada letra que passa eu me sinto mais só
............................P, Q, R, S.O.S.! Socorro!
............................Eu já tô na letra "X"! Meu caderninho de telefones já ta perto do fim
............................E eu tô longe de um final feliz
............................2345MEIA78!
............................Tá na hora de molhar o biscoito!
............................Eu tô no osso mas eu não me canso!
............................Tá na hora de afogar o ganso!
............................Ainda falta a letra "Z", mas acabaram as fichas, o que quê eu
............................vô fazer?
............................Disque-Sex? Ah! Qualé?! Chega de conversa, o que eu quero é uma
............................mulher!
............................Já sei, vou ligar pro 102, o disque informações, não há nada errado
............................nisso
...........................(Informações, Creuza, pois não?)
............................Só queria uma informação: Pode ser ou tá difícil?
...........................(Queira desculpar, mas...)
............................Vou ligar pra Zulmira mas nem adianta, ela nunca dá mole pra
............................ninguém
............................Mas se eu já levei um fora do alfabeto inteiro
............................Quê que tem levar um "Não" dela também
.........................- Alô! Zulmira? Vai fazê o que hoje?
...........................(Ah, não sei, vamô num cinema...)
............................Quando a esmola é demais o santo desconfia
............................Essa mina deve tá com algum problema...
............................Chegando no local que ela escolheu:
..........................."Não-sei-o-que-lá-do-reino-de-Deus"
............................Olha o nome do filme: "Jesus Cristo é o Senhor"
............................É comédia? (Não é filme. O cinema acabou.
............................Virou igreja evangélica e eu só te trouxe aqui pra 'cê comprar
............................pra mim uma vaga no céu!)
............................Ah, irmã, deixa disso, minha grana só vai dar pra te
............................levar pra ir rezar lá no motel!
............................(Ai, senhor, olha onde eu vim parar!)
............................Ah... Relaxa, meu amor... Ajoelhou? Então vai ter que rezar!!
............................2345MEIA78!
............................Tá na hora de molhar o biscoito!
............................Eu tô no osso mas eu não me canso!
............................Tá na hora de afogar o ganso!
............................(Gabriel o Pensador – 2345 meia 78).
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...Uma terceira linha que é citada como vertente da música rap é o gangsta, como é conhecido nos Estados Unidos: “gênero de rap norte-americano que faz apologia (3) do modo de vida dos gangsters dos guetos negros. Ridiculariza a policia e glamouriza as atividades ilícitas e criminais” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.144).
(3) Discurso ou escrito de louvor.
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...No tocante a essa questão, dentre os grupos de rap de São Paulo não foi possível caracterizar nenhum deles como gangsta rap seguindo as características citadas por Rocha; Domenich e Casseano.
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...A maioria dos grupos chegam a se referir à vida de um gangster, mas não vangloriando, exaltando e estimulando suas atitudes ou a escolha de assumir uma conduta de bandido por diversão ou mesmo por enfrentamento. Em muitas das músicas o que aparece para os ouvintes é a declaração de atitudes que levam as pessoas a passar para o mundo do crime como conseqüência de uma vida sem oportunidades. Portanto sua escolha é feita mais por falta de melhores opções do que por pura e simples vontade.
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...A forma com que os grupos trabalham a questão da vida do crime é colocada como uma defesa e um reflexo de tudo aquilo que as pessoas são obrigadas a tolerar nos bairros mais pobres das grandes cidades:
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............................Os cú critica, mas insisto acabado e fal
............................Quem de quintal tem esgoto com porco tipo curral
............................A criança que não anda Só tem um problema
............................Não ingere carne nem leite desnutrição extrema
............................Barrigudo inchado só pro sistema é saudável
............................Com sistema neurológico afetado
............................É robô pra ser dominado
............................Na certa não vai almejar cargo político
............................Mas vai mandar fita de vídeo torturando o seu filho
............................(O Poder que eu não quero – Facção Central).
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...Essas formas violentas de se expressar podem ser facilmente explicadas. Primeiramente, porque esses grupos geralmente são formados por integrantes que viveram ou ainda vivem em favelas e que estão acostumados a acompanhar a violência de perto. Quando não, já foram elas praticadas por eles próprios, muitas vezes para poderem sobreviver. Em segundo lugar, porque essa forma violenta de se expressar surge como um meio de mostrar uma certa coragem frente a tudo aquilo que foi obrigado a aceitar a vida toda, pois cresceu vendo a violência e o mundo da criminalidade de perto e agora a única forma que vê para dar uma resposta a tudo isso é através desse discurso cortante e belicoso.
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...Na maioria das músicas, os grupos fazem questão de alertar que aquela violência e vida de criminalidade que algumas pessoas seguem não são apenas por questão de status, e sim por conseqüência do desprezo da sociedade e das políticas públicas. Essas pessoas são levadas ao fundo do posso e vêem como única saída disso a vida do crime. Uma vida que desde criança eles viram como não aconselhável, mas em contrapartida uma vida de acesso rápido aos bens que só os playboys tem:
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............................Um dia ele viu a malandragem com o bolso cheio, pagando
............................a roda da risada e vagabunda no meio,
............................A impressão que dá, é que ninguém pode parar,
............................Um carro importado, som no talo, Homem na Estrada eles gostam,
............................Só bagaceira só, o dia inteiro só, como ganha o dinheiro, vendendo
............................pedra e pó, rolex ouro no pescoço a custa de alguém,
............................Uma gostosa do lado pagando pau pra quem?
............................A polícia passou e fez o seu papel, dinheiro na mão, corrupção à luz
............................do céu, Que vida agitada hein? gente pobre tem, periferia tem, você
............................conhece alguém, Moleque novo que não passa dos doze,
............................já viu viveu, mais que muito homem de hoje,
............................Vira a esquina, e para em frente a uma vitrini, se ve, se
............................imagina na vida do crime,
............................Dizem que quem quer segue o caminho certo,
............................ele se espelha em quem tá mais perto
............................(Racionais Mc's – Mágico de Oz).
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...Por esses grupos utilizarem a violência ou a vida de gangster como tema em suas músicas, não dá para classificá-lo como gangsta, pois é extremamente claro que seu objetivo fundamental não é fazer merchandising da vida gansgta. Muito pelo contrário, faz o alerta contra a adesão desse tipo de vida. Mostra que ela nada mais é que o fruto daquilo que o sistema criou através de sua ganância capitalista, que não pensa no conjunto da sociedade, mas só em seus interesses, desprezando aqueles que à primeira vista não fazem parte de seus planos.
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...As composições de rap brasileiras, apesar de terem algumas escassas mudanças no objetivo a ser atingido (como é o caso citado a cima do Gabriel o Pensador), no geral, ainda conservam fortes laços com questões etno-raciais, sociais, e com questões ligadas à violência, e se enquadram numas das vertentes do Hip Hop participando da vida de milhares de pessoas seja como atuante do movimento, seja como sujeito passivo.
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...Um fato que merece a atenção de todos é a massa de ouvintes que o rap está conquistando através das músicas nacionais. Talvez hoje seja um dos gêneros musicais mais acompanhados pelos jovens das grandes cidades que, ao ouvirem as músicas, começam a refletir nas questões que estão presentes também em suas vidas. A partir disso buscam uma participação maior em sua comunidade impulsionados pelos refrões cantados pelos nossos “tagarelas”.
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...O mais fascinante é que os grupos não ficam presos apenas à teoria de suas músicas, mas arregaçam as mangas agindo também com uma efetiva participação junto à comunidade com ações na busca de melhoria nas condições de vidas das pessoas, como é o caso do MC Renato de Sousa, integrante do grupo “Trovadores” citado nesse trabalho. Aos finais de semana, ele trabalha — juntamente com um grupo de pessoas, entre elas grandes nomes do Hip Hop como Nelson Triunfo — em projetos de oficinas culturais destinados a atender a comunidade na Casa do Hip Hop, em Diadema São Paulo.
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Douglas R. Machado.



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A poetry brasileira
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....................O retrato da favela tem só uma imagem,
....................Mas cada olho tem sua interpretação pra essa imagem,
....................Meus olhos vêem quando eu olho pra favela
....................Almas tristes, sonhos frustrados, esperanças destruídas, crianças sem
....................futuro
....................Vejo apenas vitimas e dor.
....................Os olhos do gambé vêem traficantes com AR-15 e lançador de
....................granada,
....................Vagabundas drogadas, mães solteiras, desempregados embriagados
....................no balcão do bar
....................Adolescentes viciados, pivetes com pipa, com rojão avisando que os
....................homi tão chegando
....................Vê em cada barraco um esconderijo, uma boca
....................Em cada senhora de cabelo branco uma dona Maria mãe de bandido
....................Os olhos do político vêem presas ignorantes, ingênuas,
....................Marionetes de manuseio simples, a faca e o queijo
....................O passaporte pra Genebra, o cheque especial, o tapete vermelho pra
....................loja da mercedes, o tamanco, o vestido, o mods e o vibrador da sua
....................puta
....................Vêem um mar de peixes cegos que sempre mordem o mesmo anzol
....................Os olhos do boy, esses ai, esses não vêem nada
....................Nenhum problema, não vêem a fome,
....................Os aviões com droga, o trafico de arma
....................As escola sem telhado, lousa, professor, segurança
....................Os jovem sem acesso a livro, quadra esportiva, centro cultural
....................Não vêem os ossos no cemitério clandestino, as vitimas da brutalidade
....................da policia
....................O povo esquecido e desassistido,
....................Os olhos do boy, só são capazes de enxergar na imagem da favela,
....................O medo, o medo em forma de HK na ponta do seu nariz,
....................E você truta? O que os seus olhos vêem quando olham pra
....................favela? (O que os olhos vêem – Facção Central, grifo nosso).
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...As favelas
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...Antes de fazer uma análise sobre as canções de rap nacionais, convém historicizar uma das maiores inspirações para a maioria das letras, a situação dos moradores das favelas nos dias de hoje.
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...No Brasil, desde a abolição da escravatura, em 1888, um grande problema passou a ocupar a mente dos libertos: como sobreviver. Um dos destinos mais visados 29não só pelos libertos, mas também por migrantes e imigrantes, foram as grandes cidades, que acabaram por causar uma verdadeira transformação demográfica e social no Brasil, uma vez que foram se moldando através das esperanças de sobrevivência dos brasileiros, que viam nelas uma forma de começar uma nova vida, uma forma de sobrevivência.
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...O que se viu nas grandes cidades foi o inchaço de sua população. Novos habitantes vindos do interior do país e dos portos estrangeiros que se ajuntavam à antigos escravos, forros e brancos pobres. Segundo Martins (1998, p.132) “[...] movimentar-se-iam, todos eles, pelas ruas alvoroçadas em busca de empregos e de tetos baratos para abrigar-se, num deslocamento contínuo que fundia vivências, experiências, tensões e esperanças”.
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...A partir dessa intensa movimentação, o quadro das cidades brasileiras, que já era instável, pela escravidão e uma forte exclusão social, tendeu a se agravar com a abolição e instauração dos princípios democráticos, inspirados pela Primeira República, chegando a um estágio de desordem incontrolável, no entender das elites governantes:
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....................“Surgia então [aos olhos da sociedade] a figura aterradora da massa
....................de ‘cidadãos’ pobre e perigosa, viciosa, a qual emergia da multidão
....................de casas térreas, de estalagens e cortiços, de casas de cômodos,
....................de palafitas e mocambos que eram a vastidão das cidades
....................herdadas do império. Acusadas de atrasadas, inferiores e pestilentas,
....................essas populações seriam perseguidas na ocupação que faziam das
....................ruas, mas sobretudo seriam fustigadas em suas habitações”.
....................(MARTINS, 1998, p.133).
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...Logo as elites das grandes cidades, acostumadas a fazer refletir no Brasil os padrões estabelecidos pelas elites do primeiro mundo, combinadas as novas políticas públicas, viram a necessidade civilizar o país nos moldes europeus. Soma-se a isso a necessidade de investidores estrangeiros, que, habituados com os padrões sanitários e arquitetônicos do primeiro mundo, não viam no Brasil senão um passo atrás na corrida dos países mais preparados para receber os investimentos das prosperas indústrias capitalistas.
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...Vale lembrar que um dos fatos que mais influenciaram essas novas inspirações das elites em busca de uma civilização das pessoas e cidades, foi o advento da república.
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...Para se encaixar as novas funções urbanas promovidas pelo capitalismo industrial, em suma, as novas políticas públicas procuravam organizar a geografia das cidades e separar as elites brasileiras das classes mais pobres. Para isso, tentaram implantar os modelos que vinham sendo desenvolvidos na Europa, atingindo assim uma:
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....................“[...] diferenciação entre ruas e casas, entre espaços ‘públicos’ e
....................‘privados’, “[...] diferenciação entre ruas e casas, entre espaços ‘públicos’
.................... e ‘privados’, devia ainda ser necessariamente acompanhada pela
....................geografia de exclusão e segregação .social, que acabasse separando
.................... em bairros distintos os diversos segmentos sociais [pois até o momento]
.....................[...] casas de comércio dividiam paredes com habitações luxuosas ou
....................remediadas, e não raro com curtiços, estalagens e casas de cômodo”.
....................(MARTINS, 1998, p.136-137).
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...Essa falta de ordem na geografia urbana e precariedade na infra-estrutura refletia diretamente “[...] nas altas taxas de mortalidade que acometiam os domicílios populares, provocadas pelas sucessões de surtos de cólera-morbo, febre amarela, varíola, e em particular de tuberculose, além de peste bubônica [...]” (MARTINS, 1998, p.140).
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...Sendo assim, uma das primeiras atitudes para por em prática o projeto civilizador foi a separação entre as elites e as classes mais pobres, incluindo a eliminação dos cortiços do Rio de Janeiro, na época capital nacional. Entretanto, desde o início o projeto mostrou-se como belo exemplo da incapacidade das políticas públicas brasileiras na execução de seus projetos com relação a reorientação das populações expulsas.
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...Um exemplo dessa falta de capacidade foi a demolição do cortiço Cabeça de Porco situado na base do morro da Providencia, executado pelo prefeito Barata Ribeiro em 1893.
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....................A miséria e os miseráveis que haviam perdido suas habitações na
....................derrubada violenta do cortiço tinham à disposição o morro do
................... contíguo — e as madeiras da demolição que a própria prefeitura
....................permitia recolher. Barracos de madeira já estavam disseminados no
................... morro de Santo Antonio, ponto privilegiado da cidade, e logo estariam
....................presentes no morro da Providência, nos anos que se seguiram às
....................picaretas de Barata Ribeiro. Na vizinhança do Cabeça de Porco,
....................surgia a “Favela”, apelido que seria dado ao morro da Providência
....................pelas tropas vindas de Canudos em 1897, as quais estacionaram ali e
....................acabaram denominando o local desse nome por associação a plantas
....................com favas, comuns tanto no morro carioca quanto nas cercanias do
................... arraial de Antonio Conselheiro, o Belo Monte. As favelas, nascidas
....................no Rio de Janeiro quase contemporaneamente à Republica, inauguravam
....................de modo exemplar o rol de frustrações das elites em eliminar as
....................convivências de habitações e populações diversas no seio da maior e
....................mais importante cidade brasileira de então, fornecendo um
....................paradigma do que se processaria ao longo de século XX em quase
....................todas as medidas que visaram a exclusão social mediante a
....................condenação e eliminação de habitações inconvenientes
....................(MARTINS, 1998, p.141-142).
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...Mesmo com toda essa política de saneamento das cidades, as elites brasileiras não conseguiram distanciar-se das classes mais pobres. Primeiramente, porque a própria lei deixou brecha para a interpretação e uso dos moradores dos morros: “[...] os barracões toscos não serão permitidos, seja qual for o pretexto de que se lance mão da obtenção de licença, salvo nos morros que ainda não tiverem habitações e mediante licença” (MARTINS, 1998, grifo nosso, p.154). Em segundo lugar, por causa do transporte dos trabalhadores, pela precariedade dos trens e bondes que serviam as periferias mais distantes. As elites não podiam esperar horas e mais horas pelos seus empregados, por estarem acostumados à cômoda exploração desse contingente humano desde a escravatura.
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...O que pode ser observado é que as elites e as políticas públicas de fato não conseguiram expulsar a vizinhança indesejável, pois, “A vizinhança, tão renegada, tornara-se cumulativa, tão necessária quanto incontornável, próxima, mas arredia, quadro emblemático carioca que se repete e se representa em [...] todas as grandes cidades brasileiras” (MARTINS, 1998, p.213).
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...Nos anos que se seguiram, o quadro das grandes cidades brasileiras tendeu a se agravar ainda mais. Um grande abismo entre a distribuição de renda continuou gerando uma massa de cidadãos geográfica e socialmente marginalizados, detentores de condições mínimas para educação, saúde, moradia e trabalho. Os altos índices de desemprego faziam com que os trabalhadores, para conseguir sustentar sua família, se voltassem para atividades informais. Uma outra grave conseqüência causada pelo abandono das classes mais pobres por parte das políticas públicas foi o notável crescimento da violência e da criminalidade, que os habitantes das favelas são obrigados a tolerar e conviver.
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...A elite brasileira, para se proteger do que ela mesma criou, hoje vive cercada “de grades, alarmes, cães, os espaços privados defendem-se com toda a parafernália que prolongue a idéia de que é possível manter os frutos da violência e da exclusão do lado de fora das portas que velam pelas habitações” (MARTINS, 1998, p.213).
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Douglas R. Machado


Bibliografia


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Bibliografia

SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

ROSE, Tricia. Um estilo que ninguém segura: Política, estilo e a cidade pós-indústrial no hip-hop. In: HERSCHMANN, Micael. (Org.). Abalando os anos 90. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p.190-213.

ROCHA, Janaina; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop - a periferia grita. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.

ALZUGARAY, Paula.Turma do gueto. [S. I]: Istoé Gente, 2002. Disponível em: <http://www.terra.com.br/istoegente/172/diversao_arte/tv_turma_do_gueto.htm> . Acessado em 20 abr.2006.

WU, Gabriela; SCOTT, Isabel; CHACON, Mariana; RICUPERO, Paula. Conflitos e confrontos no século XX: Bob Marley. [S.I]: Rainha da Paz. Disponível em:<http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/historia/conflitossecXX/BobMarley2.htm#[1]> . Acesso em: 26 abr.2006.

A dança de rua surgiu através dos negros das metrópoles norte americanas. [S.I.]: Dança de Rua. Disponível em: . Acesso em: 19 abr.2006.

MAXIMILIANO, Adriana. Hip hop para turistas. [S.I.]: No mínimo reportagens. Disponível em:<http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=54&textCode=21302&date=currentDate&contentType=html> . Acesso em: 04. mai.06

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva. [S.I.]: Scielo. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100020&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0103-4014> . ISSN 0103-4014>. Acesso em: 29. mai. 2006.

MOFFA, Luiz Guilherme. Bob Marley. [S.I.]: Revistão: !ObaOba, s/d. Disponível em:< http://obaoba.uol.com.br/noticias/revistao/168/comportamento.htm>História da vida privada no Brasil 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.131-214.

KEHL, Maria Rita. Radicais, Raciais, Racionais: a grande fratria do rap na periferia de São Paulo. [S.I.]: Scielo, 1999. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art text&pid=S0102-88391999000300013&lng=pt&nrm=iso#nt>. Acesso em: 21.agos. 2006

DIAS, Hertz. Manifesto às Organizações do Hip Hop Brasileiro. [S.I.]: Cmi Brasil, 2005. Disponível em: <http://midiaindependente.org/pt/blue/2005/08/325741.shtml>. Acesso em: 15 agos.2006.
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MARTINS, Paulo César Garcez. Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras. In: SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da vida privada no Brasil 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.131-214.
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Os tagarelas paulistanos


...As primeiras informações sobre a presença do rap no Brasil datam da década de 1980. Os primeiros a terem contato com este novo estilo musical foram os b. boys. Entre eles, encontramos o nome de Nelson Triunfo, conhecido pela alcunha de Nelsão, que se tornou um dos maiores responsáveis pela divulgação do movimento Hip Hop(7) no Brasil. O cabelo estilo black power e andar robótico são suas marcas. Nelsão nasceu em Triunfo Pernambuco, e veio para São Paulo na década de 1980. Já dançava o soul e, segundo o próprio Nelsão, “[...] como o Hip Hop tem sua origem no próprio soul, dançar break foi apenas um passo para mim” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.45-46).
7. Vale lembrar que o rap é a união de duas vertentes do Hip Hop o DJ e o MC.
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---Nelson Triunfo se apresentava com seu grupo de dança, Funk & Cia, numa discoteca chamada Fantasy, no bairro de Moema, na zona sul da cidade de São Paulo, um dos primeiros lugares do Brasil a promover eventos para que as pessoas pudessem dançar o break.
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---Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, surgindo das camadas baixas da sociedade, no Brasil o rap veio por meio das pessoas mais abastadas que, segundo Nelson Triunfo, tinham condições de viajar para os Estados Unidos e lá começaram a ter contato com esse novo estilo musical e suas danças, trazendo para o Brasil. Dessa forma, atingindo primeiramente para um público economicamente mais privilegiado, o rap é, a princípio, apresentado em clubes pagos.
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---Após quase um ano adquirindo experiência e se aperfeiçoando com o break e o Hip Hop, Nelson Triunfo decidiu levar a dança para o lugar de onde ela saiu, as ruas.
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---Segundo Nelsão: “pensei como era importante levar tudo aquilo que acontecia na Fantasy para o seu verdadeiro lugar, as ruas, como no Bronx, em Nova York” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.47).
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---No início, Nelson Triunfo dançava apenas por diversão, sem um compromisso com questões sociais, prendendo-se apenas a questões de auto-estima como as que eram pregadas por James Brown em suas músicas. Os primeiros dançarinos de break brasileiro não chamavam as músicas de rap, se referindo a elas apenas como toast (estilo jamaicano). Mas já era clara a mudança que esse novo estilo estava provocando nos que tomavam contato com suas manifestações. “Em qualquer roda de break podia-se encontrar jovens bem vestidos e com os cabelos sem alisar, uma das marcas do orgulho negro” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.48).
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---Fora dos bailes privados, os dançarinos do break ocuparam como primeiro ponto de encontro, para praticarem, a Praça Ramos, em frente ao Teatro Municipal, no centro de São Paulo. As práticas de dança ao ar livre, desempenhada pelos dançarinos com seus movimentos dinâmicos e arrojados com acompanhamento da música, ganhavam facilmente a atenção e interesse dos jovens que passavam pelo local, que pouco a pouco foram se juntando e formando novas equipes de dança. Como o calçamento da praça não era adequado para os passos da dança, os breakers se mudaram para a rua 24 de maio, esquina com o Dom José de Barros, também na região central de São Paulo.
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---Por aquela nova manifestação cultural ainda não ter o conhecimento da sociedade, restringindo-se apenas aos que estavam ligados ao movimento, os grupos de dança foram alvos de perseguições policiais e de comerciantes das lojas mais próximas, que procuravam inibir as apresentações, pois, os “[...] policiais alegavam que a aglomeração formada em torno dos breakers facilitava o aumento do número de furtos” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.47). Até mesmo alguns bailes que promoviam bailes black proibiram break.
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---A dança praticada pelos b.boys só começou a ser mais compreendida pela sociedade após a exibição de videoclipes de Michel Jackson, como Triller, Billie Jean e Beat It, e filmes como Flashdance.
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---Ainda nos anos 80 o irmão de Nelson Triunfo, o b. boy Luisinho com outros integrantes da Funk & Cia passaram a dançar break na estação São Bento do metrô. É a partir disso que os dançarinos decidiram formar equipes para disputar entre si. Com o crescimento de seguidores do movimento, foram sendo criadas diversas equipes como Nação Zulu, Street Warriors, Crazy Crew e Back Spin.
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---Foi nesse período de organização das equipes e crescimento no número de adeptos do break que o rap foi conquistando também seu espaço junto à juventude. Através de seu ritmo novo, diferenciado e com batidas estimulantes, mostrava aos jovens a mais nova manifestação da música afro, e os primeiros lugares por onde esses jovens foram se familiarizando com o rap foram nos salões que promoviam bailes blacks e rodas de break.
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---As músicas ouvidas nos bailes black e rodas de break eram cantadas em inglês levando os jovens a se concentrarem apenas no ritmo da música, batizando o rap de “tagarela” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.51). Pouco a pouco, através dos bailes as informações sobre o movimento foram sendo transmitidas aos breakers.
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---Essas equipes foram criando uma verdadeira comunidade break com estilos próprios, que iam de vestuário até penteado.
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---Devido ao forte contato que as equipes já tinham com as músicas e ritmos do rap estadunidense, e como essa influência já havia conquistado uma grande soma de adeptos, não demorou muito até que dentro das próprias equipes começassem a surgir projetos com o objetivo de criar grupos para cantarem as músicas usando o estilo rap com letras brasileiras para as equipes de break dançarem. Assim os primeiros rappers foram saindo das equipes de break, “[...] como Thaide e DJ Hum, ex-integrantes da Back Spin” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.51).
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---Com o surgimento de grupos com a finalidade apenas de compor as músicas, sem necessariamente praticar também a dança, surgiu entre os próprios músicos a necessidade de conquistar seu próprio espaço para desenvolverem seu trabalho.
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---Sendo assim, os novos grupos de rap que foram surgindo deixaram a estação São Bento e deslocaram-se para o Clube do Rap, espaço aberto pela Chic Show, equipe que trabalhava na organização de bailes black. Já outros grupos se instalaram na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, em um local liberado pelos correios. (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.52).
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---Com espaço próprio e com objetivos definidos, a organização dos grupos e empenho ficou mais assumida diante de um caráter musical, logo começaram a se destacar alguns grupos, como, Stylo Selvagem, Bad Boy, DMN, Personalidade Negra, Doctor MC’s e MRN.
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---Foi nesse período que também começaram a surgir lançamentos de coletâneas com os primeiros grupos saídos das equipes de break, como é o caso da dupla Thaíde e DJ Hum, da Back Spin, que participaram da primeira coletânea de rap lançada no Brasil, Hip Hop cultura de rua (1988), que obteve repercussão nacional, vendendo mais de 25 mil cópias. Segundo ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, (2001, p.51) “O primeiro disco de rap, A ousadia do rap, gravada pela Kaskata’s, quase não fez sucesso. Ele havia sido lançado um ano antes, seguido pelos discos O som das ruas, Situation rap e Consciência black”.
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---Através de uma mudança no direcionamento dos músicos acerca dos temas abordados para a construção das músicas, começou-se a elaborar canções para tratar de assuntos com propósitos políticos, raciais e críticos da sociedade agindo como divulgadores de acontecimentos relacionados a seu próprio cotidiano ou mesmo a experiências passadas. Surge então o que hoje é considerado marco divisor da velha e da nova escola, o Movimento Hip Hop Organizado, conhecido como MH2O-SP.
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---Criado pelo produtor musical Milton Sales, o MH2O-SP surgiu com a tarefa de divulgar e organizar os grupos de rap que foram surgindo das equipes de break. Segundo ROCHA; DOMENICH; CASSEANO (2001, apud SALES), “o que me motivou a criar o MH2O foi a possibilidade de fazer uma revolução cultural no país. A idéia principal foi fazer do MH2O um movimento político através da música”.
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---No dia 25 de janeiro de 1988, foi o lançamento oficial do MH2O-SP no Parque Ibirapuera, antiga sede da prefeitura, num show em comemoração ao aniversário da cidade de São Paulo. “Na ocasião, os rappers levaram lençóis pintados como bandeiras para consagrar o movimento daqueles que resistem e se organizam” (ROCHA; DOMENICH; CASSEANO, 2001, p.53).
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---Após o lançamento do MH2O-SP, os grupos começaram a se apresentar em festas populares e praças públicas divulgando seu trabalho para os ouvintes de rap e apresentando o movimento para aqueles que ainda não haviam tido contato algum com ele.
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---É importante destacar o papel que os grupos de rap brasileiros juntamente com praticantes de outras vertentes do Hip Hop assume diante da sociedade, ao invés de agirem apenas através dos discursos de suas músicas. Uma grande parcela desses grupos tem trabalhos junto à comunidade, seja através de oficinas ou até mesmo com palestras em escolas, como é o caso do cantor Thaide e o b.boy Nelson Triunfo, que também são funcionários da prefeitura de São Paulo e trabalham na Casa do Hip Hop em Diadema, no ABC paulista, inaugurada em julho de 1999, um centro cultural dedicado aos jovens.
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---Como os grupos cantavam músicas que coincidiam com a vivência da maioria dos moradores pobres, o rap nacional não encontrou fortes barreiras para conquistar a juventude das periferias. Ocorreu então a adesão em massa da população jovem brasileira, o que trouxe um estrondoso crescimento do rap no mercado fonográfico ,atingindo vendagens milionárias, como é o caso do álbum Sobrevivendo no inferno de 1997, do grupo Racionais MC’s, que com um selo independente conseguiu ultrapassar a marca de 1 milhão cópias vendidas.
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---Na esfera fonográfica os grupos de rap ainda caminham, em sua grande maioria, sem um forte apoio das grandes gravadoras, restando como alternativa apenas as gravadoras independentes, mas que têm uma ação bem efetiva dentro do movimento, na maioria das vezes reveladoras de grandes personagens dentro do rap, e agindo como uma das principais divulgadoras dos grupos. Entre as mais conhecidas e reveladoras de talentos estão a Kaskata’s, MA Records e Zimbabwe sem contar os selos individuais dos artistas, como é caso da Cosa Nostra, do grupo Racionais MC’s.
Douglas R. Machado
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